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Pequeno Conto Soturno (3)

Porra, eu só não esperava esse cheiro à asa. Santa ingenuidade essa minha também, vou te contar. Era óbvio que uma pessoa que não conhece uma gilete, também não conhece um desodorante. E olha que, eu não sou um cara exigente, nem teria como né, gorda e de bigode até vai, agora gorda, de bigode e com asa, aí já é demais. Até pra mim, é demais. Dei uns três passos pro lado. O cheiro continua. Mais dois passos. Ainda sinto a merda do cheiro daquele sovaco. Caralho mesmo, isso só pode ser pegadinha da minha cabeça. Não tem outra explicação. O jeito é pensar na safadinha do prédio e esperar a porcaria do ônibus. Aposto que ela passa desodorante, no mínimo, umas duas vezes por dia. E, com certeza, toma mais de um banho por dia também. Ô velho sortudo aquele. Eu não me importaria em ser feito de trouxa, nem um pouquinho. Tenho certeza que ele tem outras ninfetinhas espalhadas pela cidade. Imagina só, deve ter uma pra cada dia da semana, todas elas novas, magras, sem bigode e cheirosas. Velho safado. E eu aqui, esperando o Jardim Sul próximo de um orangotango fedido e que não para de me olhar. Maldita ideia de roçar o pau naquilo que eu tive. Já tô me sentindo uma banana de tanto que ela me olha. Cacete... Opa! Acho que é o Jardim Sul. Graças a Deus, é ele mesmo. Só faz a gorda ficar paradinha agora e não entrar, por favor, Senhor. Parece que ela não tá dando bola pro ônibus, ou tá com piolho porque tá coçando a cabeça com uma vontade que te digo. Tô entrando e ela tá parada. Segundo degrau, uma última olhadinha, tá imóvel, feito uma estátua feia. Deu! Obrigado Senhor, ao menos isso! Boa tarde cobrador, pegue meu último vale, eu não me importo, e tenha uma excelente noite. Coma, beba e transe bastante, sem dúvida você teve um dia tão cansativo quanto eu, você merece. Ah! Ainda resta um banco vazio, aposto que existe um arco-íris no céu nesse fim de tarde. Maravilha! Eu poderia cantar nesse momento. Mas é melhor ficar calado né, cantar não é das coisas que faço melhor. Vou me concentrar na paisagem de boca fechada. Às vezes, tem algo interessante. Esse ano eu já peguei dois acidentes e um assalto voltando pra casa. Tudo bem, o assalto não teve tiro nem nada, mas foi um assalto. O cara tava de capuz e tudo. Os acidentes, eu confesso, foram meio sem graça. Num teve sangue, o cara caiu da moto, tava todo esfolado no chão. Se ferrou bonito, foi engraçado. Hoje tá com cara de que não vai ter nada demais, é uma pena. Não vejo a hora de chegar em casa, o Magrela deve tá morrendo de fome. Dei só arroz pra ele de manhã, não tinha mais nada. Pelo menos, lembrei de deixar o portãozinho aberto, na rua ele se vira. Cachorro é um bicho bom porque é esperto, sabe se cuidar mesmo, o meu então nem se fala, se fosse gente faria a barba todo dia e não esqueceria o desodorante, pode acreditar. Semana passada ele matou uma galinha do vizinho, deu um enrosco que só. Quase saí no pau com o vagabundo do Jeremias. Enquanto isso, o malandro tava lá, de barriga pra cima, com a boca cheia de sangue. Nem para comer direito o animal, não tive como dizer pro Jeremias que não tinha sido ele né. Por sorte, enrolei o idiota, nada que uma 7 Campos não resolva. O imbecil já tava tão mamado que nem reparou que a garrafa não tava lacrada. E batizada, é claro... (risos). Ó, última parada antes da minha! Juraria que, se ainda tivesse claro, poderia ver aquele arco-íris. E, se eu bem me lembro, ainda tem meia garrafa de canha lá em casa. Eu veria dois arco-íris agora! HAHAHA Já vou me levantando, é só o tempo de dar uns passinhos até ali, voltar até aqui e... Pronto! Até amanhã simpático cobrador! E não esqueça, coma, beba e transe bastante! Só preciso caminhar duas quadras agora, passar pelo portão, fechar o portão, dar um ‘olá’ pro Magrela, abrir a porta e fechar a porta. Rápido assim mesmo. Comecei a correr depois da primeira quadra, foi rápido mesmo. Só não esperava não encontrar o Magrela. Aquele safado deve ter ido atrás de uma cadela, sem dúvida alguma. É... O jeito é fechar a porta e comer alguma coisa. Melhor, o jeito é fechar a porta e comer sardinha, pois é só o que tem. Fiquei com pena do cão e dei toda a rapa do arroz pra ele. Como eu odeio final de mês... Odeio ser feio, pobre e bondoso também. Acabei com a sardinha em duas bocadas. Tudo pra tirar os sapatos, pegar a garrafa e me sentar. Um gole de cada vez, começa forte e vai, aos poucos, ficando fraco. É como a vida. Sempre penso nisso depois do terceiro gole, incrível. Logo depois, eu já não lembro de muita coisa. É bom que seja assim. Só espero não acordar no meio da madrugada pra vomitar hoje. Aquela última sardinha era minha, pra tristeza do Magrela, não vou vomitar ela. Bem, eu espero.

Pequeno Conto Soturno (2)

Tem uma mulher de bigode do meu lado, puta que pariu. Em 2011, uma merda de uma mulher de bigode. E não me venham com discursinho humanitário e socialista em defesa dessa criatura que provavelmente, diriam, está a margem da sociedade e blá blá blá, blá blá blá. Porra, um orangotango a margem da sociedade sabe o que é uma gilete. Pior ainda é esse ônibus que não chega nunca, aposto, inclusive, que terei que ficar ao lado dessa linda senhora no ônibus também. Óbvio que ela vai entrar no Jardim Sul, ô sorte da porra essa minha... Não bastasse passar o dia na portaria do magnífico prédio de grã-fino dizendo, com a maior cara de pau, bom dia Senhora, fique a vontade Madame, quer ajuda com as compras? Boa tarde Senhor, belo carro Vossa Senhoria possui, me deito no chão agora ou depois? Minha vontade era socar a cara dessa gente toda, cuspir neles, chutar até cansar. Pelo menos, todos eles conhecem gilete... E são uns filhos da puta de primeira também. Espertos mesmo. Mora uma vadia lá que deve ter uns 23, rasgando, e é uma delícia que só ela. Acontece que o apartamento que ela vive não é dela, é de um velho chique que só. Mas pura pelanca também. Ele tem a chave, sobe direto, nem olha na minha cara o filho da puta. Vai lá umas 3 ou 4 vezes por semana, mas tem semana que nem aparece. Ele contratou até um chofer pra putinha, num Audi A3 ainda por cima, leva ela pra cima e pra baixo, cara de confiança. Isso o velho burro pensa. Foi só a safadinha abrir as pernas no banco de trás, mostrar a bucetinha sem calcinha, que o pobre do motorista já tava se babando todo. Com aquela carinha que ele tem, achar mulher com 32 dentes já é difícil, um tipo daqueles então, nem na melhor das punhetas. Daí, foi um tapa né. A gostosinha chupa o pau do chofer uma ou duas vezes por semana e tá feito. Pelo menos, foi o que ele me disse né. Mas eu acredito, o apartamento tá mais frequentado que lojinha na 25. Vai garoto, garotão, garotões e, às vezes, garotas também. Uma orgia danada. E eu não a culpo, não. A moça é nova, gostosa, tem mais é que enganar rico trouxa e dar bastante. Aposto que dar é o que ela faz de melhor. Quem sabe um dia eu descubra... Foi pensar nisso que meu pau endureceu. Foi olhar pro bigode da mulher que ele logo amoleceu também. Com esse bigode e essa barriga d’água, ela não deve dar há horas. Se bem, que sempre tem um chinelo velho né, um fedorento sem dente e safado. Sorte a dela... (risos). Eu que tô sem transar há uns meses. Cansei de puta pobre e de viciadinha em crack. Prometi a mim mesmo, a próxima agora tem que ser de qualidade. Tem que ser de graça. A minha cara não ajuda mas tô nem aí, o que mais tem é mulher boa com homem feio. Homem feio e rico, infelizmente. Pensando bem, nunca comi uma mulher de bigode. Me aproximei e rocei o pau na gorda. Tava meabomba. Ela se riu toda.

Pequeno Conto Soturno (1)

Nada mais do que um pão mofado. O único alimento que resta.
No pequeno apartamento, entre a mobília velha e puída, o cheiro de perfume barato ainda me atormenta. É o perfume daquela vadia.
Esse odor que me assombra a todo o momento.
Como um fantasma, um maldito fantasma.
Há 6 dias ela partiu, não levou nada de si. Levou tudo de mim.
E não que eu ainda a ame, muito pelo contrário.
A detesto com cada gota de meu sangue.
Após tudo o que eu fiz por ela, todo o sacrifício, ela me abandona sem dizer uma única palavra.
O celular dela toca. Ele sempre toca...
- Alô?
- Quem fala?
- Quem fala você?!
- Pedro. Cadê a Virgínia?
- Não interessa.
- Não sabe se ela está disponível agora à noite?
- Nem agora a noite, nem nunca mais! Esquece esse número filha da puta!
- Hey, relaxa...
Era a terceira vez apenas hoje. Eu atendi todas elas.
Atenderei todas as próximas até que a esqueçam.
Sei que não a possuo mais, mas também sei que ela nunca mais sairá daquela cama.