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Regozijo

Eu estava só.
Completamente só e, dessa vez, definitivamente.
Jéssica foi embora pra não mais voltar.
E eu só tinha Jéssica.


Mandei ela tomar no cu há quinze minutos atrás, disse que ela é uma vadia, idiota, que não sabe nem limpar uma casa.
Cadela imprestável.
Que morra na rua, de fome ou de sífilis.


Apaguei a vela.
Parabéns pra mim.




Pelúcia e Água

Eu sabia que não seria fácil tocar uma gravidez sozinha, ainda mais com apenas dezesseis anos, estando no segundo ano do médio e tendo que trabalhar desde os meus quinze.
Mas, nem por isso, eu desisti.
E se tem algo que me orgulho em minha vida é disso.
Há quatro anos nascia o amor da minha vida, a Luiza.
Com "Z" mesmo, pois foi assim que o Tom escreveu.
Eu era jovem, pobre, mãe amadora e apaixonada. A partir do momento em que a colocaram no meu colo, pela primeira vez, soube que a minha vida era dela.
E a vida dela era a minha.

Minha mãe sempre me falava isso. Me alertava que, do nascimento da Luiza em diante, o sentido da minha vida nunca mais seria o mesmo. E não foi.
Desde seu nascimento, moramos as três num pequeno chalé perto da lagoa.
Casa modesta. Casa limpa.

Luiza, assim como eu, cresceu perto da água. E a minha mãe, volta e meia, me diz que a carinha que ela faz quando volta do mergulho é igual a que eu fazia, há anos atrás, naquela mesma lagoa.
Ela não desgrudava daquela lagoa no verão e eu, mãe boba que ainda sou, sempre fiz todas as suas vontades.
Desde que ela era pequeninha, de caber numa caixa de sapato, eu juntava o que conseguia das minhas economias só para mimá-la.

Ela fica numa felicidade sempre que ganha alguma coisa.
Coisa de criança.
Mas ama, mais que qualquer presente, um ursinho de pelúcia.
Coisa de Luiza.

Com seus quatro anos ela já tem mais ursinhos do que eu tive na minha vida toda.
Me orgulho disso.
Ontem dei um lindo pra ela, daqueles bobinhos, segurando um “eu te amo”.
Foi a resposta que eu ouvi. A melhor resposta do mundo.
Ela não soltou aquele ursinho a noite toda.
Dormiu abraçada nele, abraçada em mim.


Dividida, linda, Luiza.


Acordou assustada hoje.
Acordou na água.
A água que ela tanto amava, veio intransigente, preta.

Suja.

Invadiu nosso sonho com pressa, com força.
Sem convite, levou música, poesia, fotografia.
Levou as nossas pelúcias.

Por Deus, me deixou Luiza.
Agarrada a meu pescoço como um animalzinho amedrontado, indefeso.
Aquela não era a água de Luiza. Nunca mais seria.
Na confusão diabólica de nossa manhã, perdi minha mãe.
Só lembrei Luiza.
Minha mãe saberia que seria assim.
São 08:13 da manhã e ainda não a encontrei.

Só sei que tenho Luiza.
Tenho amor.



São Lourenço do Sul, RS, 10 de março de 2011.




* Créditos a bela imagem para a amiga e talentosa fotógrafa Andressa Barros, confira mais do seu trabalho em: flickr

** Nota: Esse texto é dedicado à todos os lourencianos que ficaram, em corpo ou saudade. Aos que, com amor, reconstruíram.

Parede


Eu tenho uma parede na minha casa. Uma parede diferente, é lógico.
Toda noite, quando chego da fábrica, eu escrevo uma palavra nela.
Uma palavra qualquer, a primeira que vem na cabeça mesmo, sem rodeios. Já passo o dia agindo como uma máquina, com a parafusadeira laranja na mão e eu odeio laranja. E não vai ser antes de dormir que eu vou pensar.
Então, eu só pego a caneta esferográfica preta, escrevo e pronto. Só tem uma coisa, eu nunca leio o que eu escrevo ou o que eu já escrevi.

Nunca.

A parede é como um cofre, trancado de mim.
No início, eu deixava uma cortina na frente. Temia descuidar e me perder em seus segredos, nos meus segredos. Porém, com o tempo, aprendi a controlar meus impulsos.
Se tem uma coisa que uma parafusadeira ensina é a controlar os impulsos. Os 3 anos que trabalho como operário me legaram, além de uma parede, um belo autocontrole.
No passado, fiz certas coisas as quais não me orgulham nem um pouco. Aprendi a não pensar sobre elas, a não tocá-las. E o trabalho como operário ajuda nisso.
O concreto frio, o regramento das horas, a mecânica do movimento repetitivo, adocicam o fulgor amargo do corpo. Sem contar que a falta de convívio social me agrada. Eu chego, bato meu ponto, aparafuso meus parafusos, bato meu ponto e vou embora.

Direto assim mesmo.

Operário, em geral, é tudo burro. Eu sou exceção.
Tenho estudo e gosto de ler. Literatura que não me faça pensar, que fique claro.
Pensar não deu muito certo na minha vida, mas isso não vem ao caso.
Acontece que agora de noite, como de costume, a parede ficou um pouco mais preta, um pouco menos branca.
Escrevi a palavra “não” no canto inferior esquerdo. A parede já tá cheia pra caramba, mas sempre tem um espacinho.

Escrevi grande hoje.
Escrevi feio como sempre.

Tenho a impressão que já escrevi essa palavra essa semana.
Não sei.
Vou é dormir porque amanhã começa tudo de novo. E a palavra eu vou esquecer mesmo, como sempre esqueço.

Já disse que eu não penso, nem a parede.

Sincera, falsa solidão.


Um gole, apenas mais um.
Prometo que será o último... dessa noite.
O trabalho, por enquanto, permanecerá inacabado.
Entre as várias bengalas que a vida pode-lhe oferecer, não há nenhuma mais simpática que um whisky doze anos com duas pedras de gelo. E que fique claro, as duas pedras de gelo são dispensáveis.
Quando vim para Frankfurt, há exatos 8 meses atrás, não mensurava o suporte que certos vícios hedonistas da vida me proporcionariam.
A saudade de minha linda esposa Clara, mulher altiva, daquelas de uma elegância de dar inveja a uma Juliette Binoche. E um perfume, ah... Ela tem aquele cheiro de manhã de domingo que nasce morna e salpicada pela chuva. Se eu pudesse dar a ela um segundo nome, a chamaria de perdição.
Isso sem falar nas minhas princesas, a Júlia e a Fernandinha. Aposto que se você pensar em duas mocinhas meigas e risonhas vai conseguir, no máximo, uma rasura borrada delas. A Júlia é uma verdadeira dama, isso com 6 anos, ela adora maquiagem e quando põe os saltos da Clara então, nossa, ninguém agüenta 5 minutos do lado dela sem dar um apertão. Já a Fernandinha é mais moleca, parece que nasceu com o dom de atrair todo o tipo de sujeira possível pra aquele corpinho esguio. O engraçado, é que quanto mais suja ela fica, mais forte seu pequeno sorriso brilha. É lindo...
Penso nelas a todo o momento. É o melhor remédio para o frio alemão que conheço.
Acompanhado de uma ou duas doses, é claro.
Minha vontade é voltar agora para o Brasil, correr para abraçá-las como se fosse à última vez, mas ficar junto a elas para sempre.
Infelizmente, as obrigações de chefe de família me fazem permanecer aqui e lutar. Batalhar por elas a cada dia, para tornar menos sinuoso o caminho de suas vidas, principalmente, o das minhas pequenas.
Ai, ai... Já estou ficando melancólico demais. Porém, o álcool, em minhas mãos, e a solidão, em minha alma, provocam efeitos inebriantes fortíssimos.
Na verdade, se a Catarina, pela terceira vez, não demorasse tanto para mandar uma de suas garotas, eu já estaria concluindo meu serviço e não me remoendo em saudade.

Ode ao Pequeno Homem

Meu olhar perde-se vago, distante.
Berlim permanece a mesma. Entre o concreto bruto, almas vêm. Almas vão.
Nenhuma que me traga sentido. Não aqui, nem agora. Não mais agora.
Na sala tenramente iluminada pelo fim de tarde, o cigarro continua a queimar entre meus dedos. Enquanto a brisa fria adentra pela janela, como um arauto de outra tempestade.
Em meio à dispersão de meus sentidos, refugio-me em meus pensamentos, em meu coração.
Tudo está tão claro. Simples e compreensível.
Nunca, em tempo nenhum ou canto algum, o homem encontrou verdadeiro sentido para seus anseios.
Das vãs crenças religiosas aos mais engenhosos discursos filosóficos apenas encontram-se máscaras.
Tão humanas e etéreas que nada mais são do que gritos de afirmação jogados ao vento. Os quais fazem questão de ecoar ao sabor do tempo.
Pronunciados pelos célebres senhores do momento, são tão ímpios que a mais frágil inteligência humana pode, ao abrir os olhos da alma, desmembrar suas maquinações.
O homem é o senhor do homem. E não Sr. Immanuel Kant, a humanidade não caminha para uma compreensão racional superior.
A vida humana está no limbo. Fragmentada em milhares de corações incrustados em carne e ossos que sustentam irrisórias porções de razão. Estas que, de tão multifacetadas, nunca encontrarão a verdade sobre si, quem dirá então sobre todas as coisas.
Contudo, a libertação pode ser quase que palpável. Ela inicia-se na negação a razão humana como fonte de conhecimento sobre si e o mundo. Transforma-se na aceitação da vida terrena como parte intermediária do processo evolutivo e encerra-se na crença a completude extraterrena, onde todas as almas tornam-se una.
Quando esta compreensão surge, o momento de libertação ganha forma.
Não há nada mais que me prenda nesse purgatório mundano de prazeres carnais e sofrimento. Os prazeres desvaneceram-se todos.
Das mais variadas, intensas, formas que sorri e gozei nessa vida, não houve nenhuma que não tenha sido acompanhada de brutal pesar. Pois quando mais alto meu gargalhar soou, em maior calar o meu chorar retumbou.
Estive imerso nesse retórico ciclo por muito tempo, até que os prazeres, em mim, cessaram de brotar. Então, a dor abandonou uma de suas moradas.
Como pedra despojei-me de qualquer sensação. Construí abrigo nos desertos de meu coração e minha razão. Em suas fragilidades, encontrei o único desejo que norteia-me: redenção.
Já não posso mais negá-lo.
A quem possa ler esse desabafo, espero que, ao menos, algum dia ele lhe faça sentido. Nesse momento, estaremos unidos. Eu estarei te esperando. Como chuva que, em fim de tarde, materializa-se e cai.


Pequeno homem.
Berlim, 25 de agosto de 2010.

Sobre Adriano e o Tempo

O sol figurava alto no horizonte.
Sol vigoroso. Sol de verão.
O calor era sufocante, apesar de fustigado pela inconstante brisa do Mediterrâneo, a tarde passava. Quente.
Adriano estava aconchegado sob a doce proteção de sua oliveira.
Ela que se erguia imponente frente ao sol, entortava seus raios e enfrentava o verão, era sua árvore preferida. Árvore grega.
Ele já não discernia a quanto tempo estava ali.
Seu corpo enrijecido não procurava saber.
Uma hora ou duas. Um dia. Um mês. Uma vida.
Espaços de tempo que já não importavam para quem um dia foi dono do mundo. Foi jovem.
E hoje está presos em ossos frágeis, mascarado em pele flácida.
Atrelado há um tempo que já passou.
Lembranças. Certamente tudo o que restou.
Recortes de um tempo valioso. Tempo não esquecido.
Entre um olhar ao lago, um toque a grama, Adriano repassa momentos.
Seus momentos.
Retornou a Borístenes, seu fiel companheiro,
de pelagem escura e dorso forte, imponente.
Dono de um galope feroz, agia como se lesse os pensamentos de seu cavaleiro.
Juntos eram mais do que homem e cavalo.
Era centauro.
E o tempo galopava.
Pensou em Trajano, Nero, Otávio.
Seus antecessores, assim como ele, responsáveis pela consolidação do Império.
Recordou de um tempo que não era seu,
mas que era confusamente tão distante e tão próximo.
Era pesado, opressivo.
Possuía cheiro de tradição, tom de liderança e gosto de sacrifício.
Emanava poder. Carregava solidão.
Tentou apagar isso da memória.
Visualizou Antínoo.
De cabelos louros, rosto delineado e personalidade tímida, ele exalava juventude.
Adriano que nunca esqueceu o amor, voou rumo a um tempo apaixonado, voluptuoso, impregnado de calor e frio, prazer e dor.
Tempo de antíteses.
Reviveu Antínoo com intensidade. Paixão.
Terminou, como já fizera tantas vezes, recordando sua morte.
Chorou.
Quis voltar ao tempo em que era uma criança em Itálica.
Quando a responsabilidade era uma promessa,
o mundo era pequeno e o tempo era grande.
Era grande e leve.
Era como nuvem de outono.
Permitiu perder-se nesse mar sereno e calmo.
Despertou ao som dos pirilampos.
O sol já havia se despedido sem rodeios e a lua reinava soberana.
Adriano admirou-se com a velocidade de seu tempo.
Desse seu novo tempo.
Afinal já foram tantos. Porém sempre possuíam o mesmo nome.
Tempo.
Quem sabe nada mais do que um paradoxo indecifrável.
Quem sabe... Pensou.
E adormeceu. Sem pressa, nem anseios.
Sem amarras.




Inspirado no livro Memórias de Adriano da escritora francesa Marguerite Yourcenar. Trata-se de uma autobiografia fictícia sobre a vida do imperador romano Adriano, que reinou no início do século II D.C. (entre 117 a 138), caracterizado por ser um período intercalar entre a queda na crença aos deuses romanos e a ascensão do Cristianismo. Recomendo a leitura e espero que Yourcenar não se revire no túmulo pela tomada de sua obra.

Separados

Em mais um instante, milimetricamente incontável, ele a viu.
Novamente, como sempre, a passar em frente a sua morada.
Já não lhe parecia mais provocação, psicológica agressão.
Já não o devia ser, impossível, vã devaneio, pensou.
Pensou e quis acreditar. Acreditar... tentou. Apenas.
O caso é que aquele caminhar malevolente, os cabelos negros
que dançam em perfeita sincronia com aquela cintura esquia e os olhos...
Aqueles olhos que como dois sóis quentes e tenros
aquecem uma gélida manhã de inverno,
enquanto o calor e o frio se chocam,
todas as sensações se misturam e o dia nasce em cor.
Colorido.
O fato é que isso o afetava. Sentia como se levasse um tapa em sua face,
uma punhalada em seu coração e o ar que respirava, subitamente, desaparecesse.
Tudo isso ao mesmo tempo. Junto. Colado.
As nove horas de uma cinza manhã de terça-feira.
Ela dobrara a esquina. Seguiu. Ele ficou. Conteve-se.
Não possuía o direito de reivindicar mais nada frente a ela.
Sabia que o tempo trataria de levá-la a dançar em outras freguesias,
ludibriar novas autarquias e, quem sabe, iluminar alguma incauta manhã de inverno.
Ele sabia. Por isso nada fazia.
Ela ia. Queria ir.
Mas passar em frente aquela casa,
rebolar com sapiência e fingir não olhar era tentação demais, luxúria.
Ingrata.
E assim, inverno e verão separados. Como deve ser.